segunda-feira, 18 de maio de 2009

A escolha.

Aquela dor dilacerante enfraquecia seu corpo. Como é que se contém a lágrima quando uma parte de si se quebra?

O espelho no chão em pedaços refletindo uma imagem incompleta. Qual delas seria uma parte de si? Talvez nunca a encontrasse, perdera-se ao dizer "adeus". Não havia volta, nem esperança, tão pouco sonhos. Eles se foram por uma razão e pela mesma não mais voltariam.

Era a hora de deixar o passado esmorecer e seguir em frente, o singular era a melhor opção.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Sono

- Onde está você? - perguntou a alguém que já não se fazia presente, com o coração quase preso e espremido em sua mão. Sempre se sentia assim: só e angustiada. Precisava de outro alguém que lhe ajudasse a atingir o equilíbrio, era dependente, sabia disto, mas encarava com naturalidade sua necessidade, como se fosse parte de si e de suas funções, quase como respirar.

Não agüentando o apertar sentido no peito, chorou sua ausência e o desejou ali, a segurar-lhe a mão, oferecendo-lhe um abraço protetor, no entanto, nada havia alem de sua vontade e necessidade de ser confortada.

A cada lágrima um novo aperto e um segundo a menos de esperança.

Perguntou-se, entre um soluço e outro, se havia alguma maneira de fazer com que o sentimento de estar perdida e insegura passasse, não encontrando resposta, cerrou os olhos forçando o sono e pediu que um único desejo lhe fosse atendido: queria esquecer.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sinais.

Já começara a sentir os primeiros sinais, não era como se tudo tivesse desaparecido, na verdade, aquilo que mais odiava sobre si mesmo havia retornado e era angustiante. Estremecia a cada possibilidade de contrariedade, desafeto e, inclusive, indiferença. Até poderia haver um pouco de realidade em seus pensamentos, mas eles eram, em sua maior parte, senão em toda sua totalidade, esboços de pensamentos equivocados e criados para infringir-lhe dores, como uma contramedida futura, uma anestesia para o que acreditava que lhe aconteceria.

Permitira que seus medos retornassem, assim como suas inseguranças, as quais causavam-lhe as mais terriveis tristezas, mesmo quando sabia, ou achava que sabia, que nada era real. Sentia que enganava-se, que tornara-se seu inimigo, seu próprio destruidor de sonhos.

Ainda, pensava, havia tempo para não se sabotar, mas o gosto já não era o mesmo, aquele doce encanto suave aos poucos tornara-se apenas suave encanto e, talvez não lhe fosse o suficiente. Era assim, queria sempre mais e, quando lhe era negado, o sabor mudava. Desejava o mundo para si, pois entragava-se ao mundo e o mesmo desejava que lhe fosse entregue.

Todas suas dúvidas e presságios não passam de enganações, previsões de algo incerto, que talvez, como é provável, venha acontecer de maneira totalmente contrária do que pensa, mas em sua mente um futuro que já conhece de cor toma vida. Quantas vezes não acontecera o mesmo? Talvez, neste momento, fosse diferente, esforçava-se para acreditar, mas aquele zumbido intermitente não deixava-lhe sonhar, não como almejava no seu intimo: voar sem os pés no chão.

Decidiu, então, esquecer. Esqueceu, por um momento todo o passado, apagou com uma borracha, e fingiu que ele nunca existira. Animou-se e, mesmo ainda percebendo as marcas deixadas, permitiu-se. Vendou os olhos e seguiu, sem medo, confiante e, aos poucos desprendeu-se do chão, ao encontro daquilo que julgava correto.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Perfeição.

Não havia foco, o olhar disperso entre os espaços de um pensamento e outro enquanto ouvia a música que lhe encantava pela musicalidade e, por saber que quando a mesma era escutada a distâncias ela era lembrada de maneira delicada, como sempre quisera ser pensada: com o carinho de quem sente uma ardência no peito ao primeiro sinal ou ruído de voz produzido pela pessoa querida.
Mesmo no seu olhar desfocado podia-se ver claramente o que acontecia, pois lá havia um brilho atípico, que fugia da opacidade usual e, o sorriso leve e sincero denotava um estado de êxtase explícito por intervalos de suspiros acelerando-lhe os batimentos. Sentia seu corpo vibrar e era tão bom estar assim...livre.
Há meses não se perdia assim, em pensamentos, suspiros e desejos. Era, inclusive, difícil aceitar a sua vontade de compartilhar momentos, experiências e, acima de tudo, sentimentos. Não era vergonha, tão pouco egoísmo, era nada além de medo e pessimismo, afinal, após tantas tentativas em vão, decepções e amores totalmente imperfeitos, confiar tornara-se uma tarefa árdua, no entanto estava ali, disposta a se permitir.
O mais estranho é que sempre se mantivera no controle e, apreciava tê-lo, no entanto ele escapava-lhe cada vez mais, permitindo-lhe laça-lo em apenas poucos momentos, nos quais percebia que era melhor solta-lo, pois sabia que ele lhe impediria de viver aquilo que não mais pensava ser possível.
Percebendo seu fado, cabia-lhe apenas a tarefa de cerrar os olhos gentilmente enquanto o chão lhe faltava, esquecendo a razão e transformando tristeza em contentamento, pessimismo em otimismo, decepção em aprendizado e, por fim, amizade em amor, pois desde que o conhecera e cedera-lhe um espaço no peito, ele o ocupou e o preencheu por completo.

sábado, 21 de junho de 2008

Vida.

A água gelada que é levada até o rosto desperta e limpa. É a pureza que falta, mas não completa. A face antes escondida por camadas de delineador e rímel estava descoberta, desnuda. Não havia sorriso nem dúvida ou estranheza, acostumara-se com a naturalidade de suas expressões, que só eram entendidas por si mesma.

Os anos haviam passado e com eles pesares eram acumulados, mas enquanto seus olhos puxados mantivessem o olhar firme e meigo, bem como seus lábios mostrassem um sorriso doce e amplo, no momento em que suas faces coravam discreta e delicadamente, não haveria pesar que transparecesse.

A mascara se perpetuara, era ela e ela era a mascara, transformara-se em uma unidade, um amalgama de sólida falsidade crível que escondia a realidade crua na qual estavam envolvidos seus sentimentos. Sua falta de essência transparente não lhe era estranha, na verdade era confortante, uma vez que ter ciência de que outros podiam ler seus gestos e pensamentos com precisão, causava-lhe incomodo.

Gostava de si mais do que de qualquer um, satisfazer-se era necessário e, quanto aos outros, se desse tempo ou tivesse vontade, atenderia às necessidades. Mas nunca demonstrava seu desinteresse, ao contrário, sorria e olhava sinceramente, como alguém pronto a ajudar um desconhecido, mantendo em mente suas vontades e objetivos enquanto fazia o que melhor sabia: esconder sua essência.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Mudança de cor.

Sorriu pela primeira vez depois de muito sentir-se deprimida. Voltara a ser criança, com sorriso facil de quem encontra a felicidade nas coisas mais simples. Esta impressão lhe aquecia o peito e a confortava, pois sabia que este era o caminho que deveria seguir. O cinza tornara-se branco, amarelo, laranja, vermelho e rosa. As suas cores favoritas retornavam à sua vida. Ainda poderia mentir e fingir tristeza, só não havia motivo para tal.

Nem o tempo frio e chuvoso da tarde lhe desanimara, havia nela uma necessidade de agitação, queria sair, conversar, interagir. Encheu-se de planos de diversões, estava euforica, especialmente pelo fato de saber que teria ótimas companhias para cada programa, todos prontos a juntar-se ao seu riso facil e sincero.

Olhou-se no espelho e viu-se mais bela, apesar dos tenis e da camiseta branca sem estampas. Penteou os cabelos, declarou seu amor por si mesma. Sabia que daquele momento em diante sua vida havia mudado. Num gesto apressado, pegou sua bolsa e saiu de casa sentindo-se leve e desprendida do monocromático cinza.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Cinza.

Decidiu não mais espera-lo. Daquele momento em diante os segundos em sua ausência não seriam contados minuciosamente, nem aguardaria impacientemente para estar em sua presença. Entendia que aquela decisão mudaria tudo, pois estaria emocionalmente sozinha desde então. Esta certeza lhe deprimia, não queria estar só.

O que faria agora que não se doaria a ninguém além de si mesma lhe tirava o sono. Tudo seria tão vazio, triste e cinza. Tinha certeza que por um bom tempo nada teria sentido e por dias não faria nada além de dedicar seus momentos à reflexão de algo já refletido e finalizado, mas mesmo assim o faria para tentar provar o quanto estava errada ou, como provavelmente ocorreria, o quanto estava certa e, em diálogos (na verdade monólogos) que teria consigo mesma esperava encontrar seu equilíbrio e o ânimo de seguir em frente.

Escreveu-lhe uma carta simples e sem rodeios dizendo-lhe o quanto sentia ter de afastar-se. Despedia-se com uma curta frase, um seco "até logo". Leu o que escrevera e arrependeu-se por um segundo, deixando rolar pela face algumas lágrimas então, segurando firmemente a carta em suas mãos, inspirou fundo como se fosse o ultimo ar que inalaria e, com um ato de fraqueza e certa covardia, levou a carta até a mesa de seu destinatário e lá a deixou para que fosse lida.